Futuro sem futuro

Eu particularmente não gosto dessa linha intelectual de culto a pobreza, ou, como os teóricos chamam, “estética da pobreza”. Fazer filmes sobre o submundo da criminalidade e da miséria das periferias brasileiras já virou lugar comum. Só que não se pode negar que essa realidade pode ser inspiradora, assim como a Ditadura, mas nem toda empreitada cultural-artística (e elas não são poucas) nesses contextos são bem sucedidas.

Walter Sales e Daniela Thomas foram felizes  em escolherem outro viés para  Linha de Passe. Focaram em uma família da periferia de São Paulo, mas optaram por mostrar aspectos para além da criminalidade. Falaram da vida, de relacionamentos, da falta de perspectivas, da fé, de uma busca constante e frustrante por algo maior. Por isso o filme é tocante e exala realidade, faz sentido até para quem não vive propriamente nesse universo.

Sem mais delongas, fica dica. Cinema nacional é bom sim, senhor! E não é só Globo Filmes.

Fall Season

Então, começou a fall season (período de volta das séries em solo americano)! E como você leu (ou não) aqui, é uma época cheia de emoção para mim. Inclusive, já tenho algumas considerações prévias a respeito:

- O Emmy (dito como o Oscar da televisão americana) passou ontem e, bem, ele é mesmo parecido com o Oscar, principalmente no quesito premiar quem não merece ou não premiar quem merece muito.  Sem contar o quesito festa chatinha que pretendia ser engraçada.

- Sobre as novas séries que eu fiquei de conferir: True Blood se revelou muito, mas muito bizarra, com vários momentos que beiram o tosco, mas, de alguma forma, eu fui mordida, e resolvi que verei mais um episódio antes do veredicto final. Já Fringe me veio com um piloto chatinho, um espécie de filme meia boca de ficção, mas o segundo episódio já me deixou mais interessada, acho que não vou virar devota, mas acompanharei mais um pouco as aventuras de Peter-Pacey, da agente semi-depressiva e do cientista maluco.

- Acho que eu encontrei uma série teen para chamar de minha: Privileged. Agora quando todos começaram a falar das clichezinhas e futeizinhas Gossip Girl e 90210 (o novo Barrados do Baile), eu também terei uma série jovem e descompromissada, que tem lá seus clichês e futilidades, porém tem conteúdo. Só vi um episódio, mas boto fé. Também acho que encontrei minha série “é ruim, mas é bom”, mas ainda não estou preparada para compartilhar isso com um mundo.

- House voltou com um episódio morno, mas com um final de cortar o coração. A série continua investindo no drama para fugir da fórmula, mas o sarcasmo continua o mesmo. Falei mais aqui.

o serial killer e o escritor decadente

o serial killer e o escritor decadente

- Dexter, que vazou na internet bem antes da estréia da TV (que será agora dia 28/09), também voltou com um episódio regular, mas com um final intrigante, preparando terreno para uma nova etapa na vida do meu querido serial killer.

- Sem dúvidas, a melhor coisa até agora foram os dois episódios de Californication que também surgiram antes do previsto. Hank Moody continua desbocado e decadente, e está sendo ótimo vê-lo lutando contra essa sua natureza e seu libido para continuar com os amores de sua vida: sua “esposa” e sua filha. Mais sobre esses episódios de Dexter e Californication pode ser lido aqui.

Bom, não tem nada diretamente a ver com a fall season, mas eu não devia assistir Six Feet Under antes de dormir, pois acabo tendo sonhos muito perturbadores e bem realista. E eu sou um tipo de pessoa que sabe quando está sonhando. Eu sei, pode ser broxante às vezes, mas também recofortante no caso de pesadelos.

Os que olhos não vêem, o coração sente

Há quatro anos, no meu aniversário, ganhei de alguns amigos da faculdade (por meio da boa e velha cota salvadora dos bolsos universitários) o livro Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago. Nunca tinha lido nada dele e foi encanto a primeira página, terminando o livro achando ele genial pela forma peculiar de narrar, escrever e criar metáforas. De lá pra cá, já li mais alguns livros do português, mas Ensaio sobre a cegueira continua sendo o meu preferido.

Portanto, desde que começou a se falar de um filme sobre o livro, minha expectativa só foi aumentando. Com direção de Fernando Meirelles e com Mark Ruffalo e Sandra Oh no elenco, eu estava esperando algo no mínimo ótimo. O que, todos sabem, não é bom, pois elevar demais as expectativas de algo contribui catastroficamente para a frustração.


Felizmente não foi o caso. Ontem, com boa parte desses amigos que me presentearam com o livro, fui assistir ao filme: Ensaio sobre a cegueira (Blindness).  Falando dos aspectos técnicos que, confesso, é o que menos importa para mim, o filme é visualmente lindo. Fotografia e direção são um primor. As tentativas de fazer o telespectador se senti cego e ser levado pela cegueira branca, no entanto, não chegam a ser assim arrebatadoras, mas facilmente se capta aquele universo que os personagens estão submersos. Aliás, o elenco, embora não tenha nenhuma interpretação transcendente, é ótimo.

Porém, eu só sei falar de sentimentos. Sendo assim, o que mais me satisfez foi o fato do filme ter sido bastante fiel ao livro. As palavras tornaram-se imagens. As sensações despertadas nas escritas de Saramago foram muito bem transposta para a película de Meirelles. E  elas não são poucas. Angustia, tensão, repulsa, medo, desesperança, esperança… Um livro e um filme sensível e pesado.

Acho que Fernando Meirelles, depois das fortes críticas recebidas, deve ter ponderado algumas cenas mais pesadas que poderiam ter dado mais sentimento e tensão ao filme, assim como é o livro, mas mesmo assim, não tenho o que reclamar. Aliás, o que eu possa falar depois do próprio Saramago ter terminado de assistir ao filme com lágrimas e sem palavras?