Caminhando, mentalmente escrevi um e-mail-desabafo enorme e sem destinatário, embora um ou outro rosto amigo me viesse em mente enquanto eu destilava lamúrias, receios, dores e outros sentimentos nada atrativos que me apetecem esses dias. Se eu fosse o Chico Buarque, teria escrito um livro da Lya Luft entre as passadas que dei da Volta da Jurema até o aterro da Praia de Iracema (ida e volta, é bom constar) – não me levem a mal, até gosto da Lya Luft (gostei da metade dos livros que li dela e acho que li dois ou quatro).
Arnaldo Antunes cantarolava no mp3 player, a voz era vibrante e forte, mas o tom era triste, muito triste. Sempre é. Sério, ele me faz chorar. E meu amigo-destinatário-imaginário pode culpá-lo por ter agravado a tristeza das linhas do e-mail. Sorte dele que me falta coragem para apertar o enviar, pois ele também não suportaria o que viria anexo às palavras.
Azar o meu que ninguém me ouve (lê). Sigo sozinha, mendigando atenção, sedenta por carinho, desviando dos estardalhaços das minhas companhias, reclamando das dores no tornozelo esquerdo, louvando cada pequeno gesto de amor que me é dado… Mas só sobram telefones que não tocam, e-mails que não chegam, mensagem que não bipam no celular, campainha que não toca… E eu me condeno por esperar por isso, então, é quando Dylan entoa na minha mente: “I’m too sensitive or else I’m gettin’ soft”.
Amanhã vou caminhar ouvindo Kleiderman: “amor é uma coisa feia”. Caminhar não, vou correr (foda-se o tornozelo) para voltar em tempo de terminar a leitura de Um bestseller para chamar de meu. Daí vou me inspirar para escrever o meu próprio bestseller (muitos leitores sem rostos), no qual desabafarei à vontade (com muito ironia e sarcasmo de preferência) por trás de um alterego. É esse o plano.





