Caminhando

Caminhando, mentalmente escrevi um e-mail-desabafo enorme e sem destinatário, embora um ou outro rosto amigo me viesse em mente enquanto eu destilava lamúrias, receios, dores e outros sentimentos nada atrativos que me apetecem esses dias. Se eu fosse o Chico Buarque, teria escrito um livro da Lya Luft entre as passadas que dei da Volta da Jurema até o aterro da Praia de Iracema (ida e volta, é bom constar) – não me levem a mal, até gosto da Lya Luft (gostei da metade dos livros que li dela e acho que li dois ou quatro).

Arnaldo Antunes cantarolava no mp3 player, a voz era vibrante e forte, mas o tom era triste, muito triste. Sempre é.  Sério, ele me faz chorar. E meu amigo-destinatário-imaginário pode culpá-lo por ter agravado a tristeza das linhas do e-mail. Sorte dele que me falta coragem para apertar o enviar, pois ele também não suportaria o que viria  anexo às palavras.

Azar o meu que ninguém me ouve (lê).  Sigo sozinha, mendigando atenção, sedenta por carinho, desviando dos estardalhaços das minhas companhias, reclamando das dores no tornozelo esquerdo, louvando cada pequeno gesto de amor que me é dado…  Mas só sobram telefones que não tocam, e-mails que não chegam, mensagem que não bipam no celular, campainha que não toca… E eu me condeno por esperar por isso, então, é quando Dylan entoa na minha mente: “I’m too sensitive or else I’m gettin’ soft”.

Amanhã vou caminhar ouvindo Kleiderman: “amor é uma coisa feia”. Caminhar não, vou correr (foda-se o tornozelo) para voltar em tempo de terminar a leitura de Um bestseller para chamar de meu. Daí vou me inspirar para escrever o meu próprio bestseller (muitos leitores sem rostos), no qual desabafarei à vontade (com muito ironia e sarcasmo de preferência) por trás de um alterego. É esse o plano.

Fraternidade

Nota prévia: No episódio 1.17 Santa Ceia, do Em Família, escrito pelo Rod, eu escrevi um texto em nome da personagem Nora Andrade, uma senhora que aos 60 anos resolveu ter um blog. Embora por motivações diferentes, eu me identifico com o texto (e confesso, foi inspirado um pouco nas minhas próprias experiências também, claro), e se você tem a infelicidade e a dádiva de ter um irmão, talvez também se identifique. Com a palavra, Nora Andrade:

As minhas lembranças infantis de Natal se resumem em muitas orações e comidas por parte de minha católica mãe, em bebida e canções por parte do meu boêmio pai, e risos e traquinagens por parte dos meus alegres e irritantes irmãos.

Apesar de ser a filha do meio, nunca sofri com a síndrome do filho-sanduíche, pois, por sorte, era a única mulher, com todos os mimos e pressões que se tinha direito na época. Por sorte também, meu irmão mais velho era um altruísta de carteirinha, incapaz de fazer mal a uma barata. Além de toda essa generosidade, era responsável, idealista, inteligente, apaixonado, apaixonante e bem-humorado. Um sonhador nato. Difícil é acreditar que todas essas suas qualidades talvez o tenha levado a seu fim trágico. No entanto, sem antes me servir de exemplo de vida.

Meu irmão mais novo sempre foi uma enigmática contradição. Embora fosse o mais calado, era também, em certos momentos, o mais espevitado. Sempre agia na surdina, por isso ninguém desconfiava dele quando a pia do banheiro ficava aberta até começar a invadir água por toda a casa. O mais velho acabava levando a culpa, claro. Sonso, o mais novo sempre abria o berreiro para alegar sua inocência. Os juízes, nossos pais, sempre ficavam comovidos com tamanha candura. Mas ninguém, nem mesmo o mais velho, que heroicamente ficava de castigo em seu lugar, conseguia ficar por muito tempo com raiva dele, o sonso do sorriso mais luminoso que já vi.

Do mais velho, eu tinha o exemplo, a proteção e o carinho. Do mais novo, a cumplicidade, a empolgação e a minha eterna preocupação sobre seu bem-estar, o mimado.

Irmãos são assim, às vezes os odiamos com uma intensidade que nunca odiaremos algo ou alguém. Mas também somos os primeiros a partir em sua defesa quando alguém o chama de feio. Doaríamos, depois de muito pestanejar, claro, um rim ou até mesmo o seu coração para não vê-lo sofrer (muito).

Com irmãos você divide tudo: brinquedos, pais, doces, atenção, quarto, carinho, problemas familiares, piadas internas e olhares cúmplices. Eles já te viram nos seus melhores e piores momentos. Nos mais constrangedores aos mais venturosos. São os primeiros a rirem da sua cara, mas também os primeiros a lhe darem a mão quando você tropeça e caí de cara na calçada. E, mesmo com uma ponta de inveja difícil de disfarçar, eles são os mais genuinamente felizes por suas conquistas.

Irmãos são os seres mais diferentes e mais parecidos com você no mundo inteiro. Assim, naturalmente, conflitos, parcerias, abraços e tapas são constantes numa relação fraternal. Isso se você tiver sorte, claro. Porque o pior do que todo esse furacão de sentimento é a indiferença que já vi em alguns irmãos por aí.

Por gostar tanto desse negócio de irmão, dei quatro para cada um dos meus filhos. E uma das maiores felicidades da minha vida é saber que mesmo entre trancos e barracos, eles são um time unido, do tipo um por todos e todos por um.

Sabe, eu não me lembro da minha vida sem irmãos. Eu ainda carrego a dor de ter perdido um tão prematuramente e estupidamente. Agora me vejo, aos poucos, perdendo outro. Por motivos tolos? Por orgulho ferido? Por não ser condizente com seus passos? Por não saber perdoá-lo e aceitá-lo?

Irmãos você não escolhe. É sorte. E é pra sempre.


Nota posterior: Agora eu, uma jovem adulta de 20 e poucos anos, resolvi ter um Twitter. Ainda não sem bem como, nem porquê, mas estou .

Um minuto para os comerciais

Pra quem não sabe, eu orgulhosamente escrevo com mais quatro amigos uma, digamos, série escrita, chamada Em Família, que conta a história da família Andrade e é inspirada (mas é diferente) em Borthers & Sisters. Ou seja, caminha pelo humor e pelo drama com as idiossincrasias de todo núcleo familiar que se preze.

Pois bem, o episódio que foi ao ar hoje (o 11º já!) é de minha autoria, então, pra quem já acompanha, fica o lembrete, e para quem ainda não conhece, fica a dica. É só clicar aqui. Aguardamos os comentários, considerações, sugestões e críticas.

Ainda no ramo “escrever + seriados”, comecei a colaborar com o Blog na TV. Vou resenhar por lá. Quem gostar do maravilhoso mundo das séries é mais que bem-vindo.

Em Família

Seis pessoas que gostam de escrever + um família disfuncional = Os Andrades.

Para saber mais: www.osandrades.wordpress.com

Os que olhos não vêem, o coração sente

Há quatro anos, no meu aniversário, ganhei de alguns amigos da faculdade (por meio da boa e velha cota salvadora dos bolsos universitários) o livro Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago. Nunca tinha lido nada dele e foi encanto a primeira página, terminando o livro achando ele genial pela forma peculiar de narrar, escrever e criar metáforas. De lá pra cá, já li mais alguns livros do português, mas Ensaio sobre a cegueira continua sendo o meu preferido.

Portanto, desde que começou a se falar de um filme sobre o livro, minha expectativa só foi aumentando. Com direção de Fernando Meirelles e com Mark Ruffalo e Sandra Oh no elenco, eu estava esperando algo no mínimo ótimo. O que, todos sabem, não é bom, pois elevar demais as expectativas de algo contribui catastroficamente para a frustração.


Felizmente não foi o caso. Ontem, com boa parte desses amigos que me presentearam com o livro, fui assistir ao filme: Ensaio sobre a cegueira (Blindness).  Falando dos aspectos técnicos que, confesso, é o que menos importa para mim, o filme é visualmente lindo. Fotografia e direção são um primor. As tentativas de fazer o telespectador se senti cego e ser levado pela cegueira branca, no entanto, não chegam a ser assim arrebatadoras, mas facilmente se capta aquele universo que os personagens estão submersos. Aliás, o elenco, embora não tenha nenhuma interpretação transcendente, é ótimo.

Porém, eu só sei falar de sentimentos. Sendo assim, o que mais me satisfez foi o fato do filme ter sido bastante fiel ao livro. As palavras tornaram-se imagens. As sensações despertadas nas escritas de Saramago foram muito bem transposta para a película de Meirelles. E  elas não são poucas. Angustia, tensão, repulsa, medo, desesperança, esperança… Um livro e um filme sensível e pesado.

Acho que Fernando Meirelles, depois das fortes críticas recebidas, deve ter ponderado algumas cenas mais pesadas que poderiam ter dado mais sentimento e tensão ao filme, assim como é o livro, mas mesmo assim, não tenho o que reclamar. Aliás, o que eu possa falar depois do próprio Saramago ter terminado de assistir ao filme com lágrimas e sem palavras?

E se eu for uma frigideira?

No dia-a-dia, eu, na maioria das vezes, sinto “vergonha alheia”, por isso mesmo é tão gratificante quando sinto “orgulho alheio”. Melhor ainda quando a fonte desse sentimento é uma pessoa tão querida. Por isso, licença, que eu preciso babar minha amiga mineira Fernanda Pinho, que vem a ser a autora do livro cuja a capa, feita por outra amiga (Roberta Azevedo), vocês vêem aqui, e que eu tive o privilégio de ler quando ele ainda eram capítulos soltos em trocas de e-mails diárias.

Bom, o motivo de orgulho não é só porque uma das minhas melhores amigas lançou um livro, mas sim porque uma das minhas melhores amigas escreveu uma ótima história que agora se tornou um livro. E se eu for uma frigideira? é a narrativa pessoal de uma mulher de 20 e poucos anos, em busca do amor (a tampa de sua panela) e de um rumo para vida. O interessante é forma leve e engraçada que Thelma, a protagonista, conta sua história, fazendo a gente e rir e se identificar com as situações. Livros mulherzinha para adolescentes e para balzaquinas têm aos montes, mas esse é sobre mulheres de uma idade injustamente ignorada pela mídia. Sim, talvez nós aos vinte e poucos anos tenhamos tão ou mais crises quanto tínhamos aos 15 ou teremos aos 30. Thelma e eu que o diga.

A própria Ferdi falou de seu livro no seu blog e ele está a venda no site da editora. É lindo, né?

Férias: minhas pazes com a literatura

Em janeiro desse ano, quando viajava entre Rio de Janeiro – Belo Horinzonte – Rio de Janeiro, eu li a admirável marca de cinco livros e meio em pouco mais de duas semanas. Ótimo, não? Só que esse outro “meio” que faltava do último livro, eu não terminei até hoje, e, desde então, venho aumentando a vergonhosa marca de ter apenas um livro lido (mal lido, no caso, já que eu pulava alguns parágrafos) e mais três livros pela metade (na verdade, pelo começo). Sinceramente, não sei o que me acontecia e isso me preocupava, já que sempre fui uma literofágica. Lia um livro atrás do outro, quebrando recordes de tempo de leitura constantemente.

Mas aí veio Férias! Não, não estou falando das férias julho (ah, férias de julho!), que não sei o que é realmente tê-las há anos. Esse tipo de férias morre com ensino médio, no máximo temos plágios fajutos. Enfim, essa é uma divagação para outro post. Na verdade, eu estou me referindo a mais um livro de “mulherzinha” da escritora irlandesa Marian Keys (aquela da Melancia, lembrou, né?).

Férias! é a narrativa de Rachel, uma toxicômana em negação e, posteriormente, em recuperação. Ela é internada a força em uma clínica de reabilitação, deixando seu emprego, namorado, amigos e a cidade dos sonhos para trás, passando a confrontar fantasmas, ou seja, ela mesma e as conseqüências de seus atos. Com toques autobiográficos, muito humor, agonia, desprezo e tristeza, somos conduzido por Rachel nessa sua jornada . É um livro engraçado e tocante, que eu devorei em menos de quatro dias!

Então, agora que já estou voltando a boa forma literária, meu próximo passo é Barão nas Árvores, de Ítalo Calvino.

O caçador de pipas

Eu fico meio assim de ver filmes e, principalmente, ler livros muito badalados. Filmes derivados de livros muito badalados, pior ainda (Preconceito, quem não tem? O meu, pelo menos, não é crime hediondo). Mesmo assim, numa tarde a toa, fui com amigos ver O Caçador de Pipas. E taí que o filme era bom. Fui, então, ler o livro. Nada de muito diferente da sua adaptação cinematográfica. Claro que tinha uns fatos a mais, outros meio diferentes, mas a essência era a mesma: uma história sobre devoção e amizade. Nos dois eu quase chorei com o “momento carta”.

O caso é que comigo as coisas acontecem da seguinte forma: mesmo, em geral, eu gostando mais de livros que filmes, se eu vejo o filmes antes, o livro torna-se menos interessante (e vice-versa) e eu sempre tendo a gostar mais daquele que eu tive o primeiro contato. E vocês? (aquela que quer interagir com os poucos amigos/leitores, rs)

A amiga Laís falou aqui sobre suas considerações a respeito de outros livros que viram filmes. Vale a pena ler.