Breve diário de viagem

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Adoro conhecer novos lugares, pessoas, entender a dinâmica e as peculiaridades de cada cidade, encontrar semelhanças, se encantar com as diferenças e notar que isso forma um bolo só (para o bem e para o mal): Brasil. E foi bem isso que aconteceu pelo Sul. Vamos por partes, ou melhor, por cidades.

Porto Alegre/RS

Juro que achei que ao desembarca na capital gaúcha naquela tarde ensolarada, eu realmente ia me deparar com um outro país. Mas não é que esse outro país parece bastante com o meu? Em termo de pessoas e arquitetura. Guardada as devidas proporções, claro. Enfim, não consegui conhecer muito de Porto Alegre, mas já simpatizei total com a cidade e seus habitantes.

No show dos Titãs que assistir por lá, no bonito e moderno Teatro Bourbon Country, a platéia estava animadíssima, e Paulo Miklos revelou uma vontade da banda de ser gaúcha por aquela semana (que fariam uma mini turnê pelo estado), em resposta, o público bairrista começou a gritar “eu sou gaúcho”. Com isso, Sergio Britto (e seu pé atrás com o ufanismo) alertou e sentenciou que somos, no final das contas, de lugar nenhum. Bem propício, já que eu, uma cearense, estava nessa viagem (e nesse show) acompanhada de uma gaúcha, uma catarinense e uma paranaense (depois ainda se juntaram mais duas dessa laia).

Lajeado/RS

Cidade pequena. Poucos táxis disponíveis. Hotel meia boca. Pessoas irritantemente efusivas. Lajeado foi a que proporcionou os momentos mais tragicômicos da viagem.

Não se tinha muito o que ver ou fazer por lá, mas o nosso único objetivo era chegar até Muçum, uma cidade ainda menor (bem menor), com por volta de 3 mil habitantes e mais ou menos uns 40 minutos de Lajeado. O show foi numa espécie de boate, com direito a todos os chatos tuts, tuts, tuts martelando no ouvido antes e depois do show. Sem contar os nossos companheiros de van, que insistiam em cantar de funks a hinos religiosos, passando, claro, por canções gauchescas. Dor de cabeça bombando.

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Passo Fundo/RS

Hora de começar a subir a serra. Assim que cheguei a Passo Fundo, vi que os nativos da cidade andavam bem agasalhados, o que me deixou temerosa. Afinal de contas, se eles estavam sentindo frio, eu iria congelar. E quase congelei mesmo, mas eu nasci para o frio (até minha pele e meu cabelo ficam melhores com os ares sulinos), então, tirei de letra.

O hotel era bacana, mas os funcionários eram meio panacas. Não entendia coisas obvias e se atrapalhavam tanto que até nos confundiam. Bom, o importante é que nessa altura da viagem, já éramos uma entrosada turma de seis pessoas maravilhosas. A sintonia era tanta que surgiam novas piadas internas a cada segundo. Sem duvidas, uns dos dias que mais ri na vida. Aliás, nesse dia ninguém dormiu, ficamos rindo até a hora de tomar café.

E em plena sexta-feira santa, andamos uns 35 km e fomos berrar os versos do bendito e maldito rock na também pequena Marau. Consta que o padre da cidade até tentou cancelar o show. De certo, nosso santo era mais forte.

Nova Prata/RS

Quase que eu e a caterinense fomos para Gramado encontrar com a amiga pernambucana, que estava passando o feriadão com a família por lá. Mas não encontramos uma vaga em hotel, nem um assento de ônibus sequer, portanto, seguimos subindo a serra gaúcha em direção a charmosa Nova Prata.

A cidade era tão pequena e encantadora, que os próprios taxistas nos aconselhava a ir a pé para os lugares. Arrastando malas, chegamos ao hotel-shopping, que por sua vez era, segundo a recepcionista, uma, duas, três ou quatro quadras no Grêmio Pratense, local onde teríamos que estar naquela noite.

O frio era grande, mas a noite foi cheia de calor humano. O mais memorável foi a música que Paulo Miklos dedicou a nós durante o show. Não existe o amor, apenas provas de amor. E a madrugada seguiu regada de champanhe, riso e rock’n'roll.

O dia seguinte era domingo de ramos, então, tivemos o nosso almoço pascoal. Um almoço um tanto quanto surreal, já que no mesmo recinto gastronômico estava a banda de rock e uma senhora que comemorava seus 80anos com toda família.

A comida do Estrela do Sul, restaurante de beira de estrada, deixou a desejar, mas como somos uma turma sensacional, nosso papo e nosso ovo de páscoa foram transcendentais. Você tem fome de quê?

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Águas de Chapecó/SC

Finada a turnê, fui com a catarinense para sua terra natal. Cidadizinha tranqüila e cheia de pessoas do bem, mas com um sotaque que às vezes me faziam duvidar se falavam realmente português. Quem sabe misturassem com o alemão ou italiano, tão comum para aquelas bandas.

Por lá, acabei até conhecendo uma hidrelétrica e provavelmente a metade da cidade. Gostei de tudo.

Curitiba/PR

Eu tinha uma paixão platônica pela cidade e não me decepcionei. Lugar lindo e verde. Frio e hospitaleiro. Conheci o oil man (figura pitoresca que besunta a pele de óleo e sai apenas de sunga pelas ruas da cidade), comi pinhão, andei muito, me encantei e constatei que eu nasci para morar pelo Sul, especialmente na capital paranaense.

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Em resumo, apesar de eu ter adorado o Sul e todos os shows, o melhor foram as pessoas que me acompanharam nessa maratona de passeio e música. Afinal, qual a probilidade de viajar com amigos que, em um olhar, você se dar conta que são praticamente de infância e que são pra sempre? Sem dúvidas, ganhei na loteria da amizade.

Asteriscos sobre o tour pelo Nordeste

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* A vida é cheia de pequeno prazeres, e eles, em sua esmagadora maioria, são fugazes. E a tentativa de prolongá-los pode ser muito frustante.

* João Pessoa tem os  cartões-postais mais enganosos que eu já vi. E os caixas eletrônicos de lá são esquisitos.

* São Luís tem as tarifas de táxi mais baratas, em compensação os cartões-postais mais caros.

* Lençóis Maranhense é realmente lindo.

* Já Porto de Galinhas não é essa coisa toda que divulgam, mas bem bonito também, como todo litoral que se preze.

* Eu amo Recife quase tanto quanto seus moradores amam. É a cidade mais ufanista que eu já conheci, além de incrivelmente cultural.

* Eu também amo minha Fortaleza. O melhor transporte urbano do Nordeste.

* Não se tem muito o que fazer em Natal se você não gosta de praia. Mas lá você pode até andar de dromedários! Awesome!

* Não importa o lugar, nem as condições climáticas. O horário, o motivo ou a programação. O que vale é a companhia, ela transforma uma tarde chuvosa dentro de um shopping maranhense em um momento inesquecível. Ou uma ida frustrada ao pôr-do-sol mais badalado da Paraíba em risadas e planos sonhadores para vida.

* Saudades dá depressão.

* Voltar à vida normal é difícil, principalmente quando você não está lá muito satisfeita com ela.

* Estou com preguiça da realidade. Às vezes sequer eu consigo dar conta de existir.

* Alguns momentos me fazem acreditar na vida. Algumas pessoas me fazem acreditar na humanidade. E tudo isso ainda me faz acreditar um pouquinho em mim.

* Eu tenho os melhores amigos do mundo.

* O 14 de março desse ano talvez tenha sido o melhor 14 de marços dos últimos 24 anos.

Águas de março

“Quem determina quando o velho acaba e o novo começa? Não é o calendário, não é um aniversário, nem um ano novo – é um evento”
(Meredith Grey, Grey’s Anatomy)

Apesar das sempre constantes chuvas de verão, dos meus sempre presentes resfriados por causa das chuvas de verão e  do fato de eu  ficar um ano mais velha exatamente nesse mês, eu adoro o mês de março.

Para muita gente, o ano começa depois do carnaval, para mim começa agora, depois do dia 14/03, o que na minha cabeça faz total sentido, já que sempre fui obcecada em ligar tudo à minha data de nascimento.

Whatever, fato é que dia 14/03 embarco numa tour pelo Nordeste com minha amiga do Sul. Partimos daqui de Fortaleza e passaremos por Recife, Porto de Galinhas, João Pessoa, Natal, São Luiz e Lençóis Maranhenses. Vou tentar postar sobre a viagem durante a mesma, mas caso não apareça, já sabem o motivo.

Feliz ano novo!